para pensar…

“…Não estamos em condições de nos salvar a nós próprios, sobre isso não restam dúvidas. Falamos em democracia, mas ela é apenas a expressão política para um estado de espírito caracterizado pelo «Pode ser assim, mas também de outro modo». Vivemos na época do boletim de voto. Até votamos todos os anos no nosso ideal sexual, a rainha de beleza, e o facto de termos transformado a ciência no nosso ideal intelectual não significa mais do que pôr na mão dos chamados factos um boletim de voto, para que eles escolham por nós. Este tempo é antifilosófico e cobarde: não tem coragem para decidir o que tem ou não tem valor, e a democracia, reduzida à sua expressão mais simples, significa: Fazer aquilo que acontece! Diga-se de passagem que é um dos mais desonestos círculos viciosos que alguma vez existiu na história da nossa raça.

…Mas isto não levaria a nada: o mundo de hoje está tão longe do delírio que nunca sabe se deve amar ou odiar, e como tudo é ambivalente, também as pessoas são neurasténicas ou fracas. Em suma – comcluiu o profeta abruptamente – não é fácil para o filósofo renunciar ao conhecimento, mas o ter de fazê-lo é talvez o grande conhecimento a que está chegado o século XX.”

retirado de “O homem sem qualidades” de Robert Musil

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